terça-feira, 28 de março de 2017

'Novo Mundo' e os sotaques que atrapalham as novelas

Ingrid Guimarães, a portuguesa Elvira da novela 'Novo Mundo' (Foto: Raquel Cunha/TV Globo)

Até aqui, “Novo Mundo” está encantando o espectador. A novela da Globo conjuga o texto de qualidade da aventura escrita por Thereza Falcão e Alessandro Marson, um elenco de estrelas e a direção muito bem conduzida por Vinícius Coimbra. Trata-se de um enredo de época, com um investimento em figurinos e cenários como nunca se viu na faixa das 18h.
Até ontem, os personagens estavam em trânsito entre o Velho Continente e o Brasil. A marcha de alguns — e o desterro de outros —, entretanto, não se refletiu na forma como quase todos falam. No geral, eles ainda parecem bem presos a seus lugares de origem. Quem vem da Áustria, como a Princesa Leopoldina (Leticia Colin), carrega nos erres; Carlota Joaquina (Debora Olivieri) é uma espanhola reconhecível na primeira sílaba; Já Elvira (Ingrid Guimarães) se comunica à moda portuguesa. Em contraste com eles, há Thomas (Gabriel Braga Nunes). Ele é inglês, mas fluente em “brasileiro”.
Tudo isso provoca duas confusões simultâneas na novela. A primeira, acerca da lógica que orientou apenas uma parte do elenco a falar com sotaque. A outra, e mais gritante, é o próprio sotaque, que age como um degrau na comunicação com o público.
Há inúmeros exemplos de tramas em que isso aconteceu. “Êta mundo bom!” fez muito sucesso, mas o caipirês dos personagens demorou a cair no gosto do público, apesar do trabalho sério de prosódia feito nos bastidores. O ótimo Emilio Orciollo Netto, o detetive Damasceno de “Sol nascente”, volta e meia falava mais italiano que português. E a pergunta fatal, “o que mesmo ele disse?”, se impunha. Já Ana Beatriz Nogueira, em “Ciranda de pedra”, de 2008, fez o contrário. Ela interpretava uma governanta alemã. Era chamada de frau Herta, mas o alemão usado nas cenas se resumia a esse título. Deu tudo certo.
O sotaque é uma escolha cheia de riscos. Ele pode ser desagradável, uma barreira. Como as novelas são obras abertas, aparar arestas faz parte do jogo. No caso de “Novo Mundo”, com uma viagem literalmente em curso, isso ficaria mais fácil ainda.

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